Uma mudança no processo para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) pode mexer de vez com a vida das autoescolas no Brasil. O governo avalia acabar com a exigência de aulas obrigatórias para quem quer habilitação das categorias A (moto) e B (carro de passeio). A promessa é de que o custo caia em até 80%, mas a discussão já trouxe preocupação para o setor.
300 mil empregos em risco
Segundo a Federação Nacional das Autoescolas e Centros de Formação de Condutores (Feneauto), a medida pode atingir diretamente cerca de 300 mil trabalhadores. Hoje, existem 15.757 CFCs ativos em todo o país, responsáveis por movimentar quase R$ 429 milhões por mês em salários.
Para a entidade, se as aulas deixarem de ser obrigatórias, muitas empresas podem não resistir, principalmente nas cidades pequenas, onde a procura já é menor. Além disso, há receio de que o nível de preparo dos novos motoristas caia.
O que o governo argumenta
A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) nega que haverá prejuízos e afirma que a medida trará vantagens para as próprias autoescolas. Em entrevista ao Metrópoles em agosto, o secretário nacional de Trânsito, Adrualdo Catão, disse que as empresas serão beneficiadas pela redução dos custos de funcionamento e também pelo aumento da procura de pessoas interessadas em obter a CNH.
Segundo ele, ao abrir o mercado, a tendência é que a demanda reprimida apareça. “Acham que não vão sobreviver, eu discordo. Acho que vai ser muito melhor para eles. Porque quando você abre mercado a tendência é que a demanda reprimida venha”, afirmou.
Catão destacou ainda que a proposta não surgiu agora. Ele explicou que o projeto já vinha sendo estudado há alguns anos, inclusive pelo governo anterior. Entre os motivos que reforçam a ideia, estão o alto número de pessoas dirigindo sem habilitação no Brasil — cerca de 20 milhões — e o preço elevado do processo de formação.
CNH mais barata: como seria
A mudança mais importante da proposta é o fim da obrigatoriedade de passar por autoescolas. O aluno poderá estudar a parte teórica de diferentes formas:
- Parte teórica: poderá ser feita em autoescola, em empresas credenciadas de ensino a distância ou em formato digital, pela própria Senatran.
- Parte prática: deixa de ter a carga mínima de 20 horas. O aluno decide como se preparar para o exame.
- Instrutores autônomos: candidatos poderão contratar profissionais credenciados pelos Detrans.
A abertura do processo será feita pelo site da Secretaria Nacional de Trânsito ou pelo aplicativo da Carteira Digital de Trânsito (CDT).
Outros países já aplicam
O modelo é inspirado em países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Japão, Paraguai e Uruguai, onde as aulas não são obrigatórias, mas os exames continuam rígidos. A ideia é modernizar o sistema brasileiro e facilitar o acesso à CNH para quem não tem condições de pagar os valores atuais.
E o futuro das autoescolas?
Enquanto o governo fala em modernização e redução de custos, donos de CFCs enxergam risco de crise. O debate ainda vai seguir, mas o que já se sabe é que, caso a proposta seja aprovada, o processo para tirar a CNH no Brasil nunca mais será o mesmo.





