O clima entre Brasil e Estados Unidos esquentou de vez. Na última quinta-feira (28), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bateu o martelo e autorizou o início de uma análise que pode, sim, levar o Brasil a aplicar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos. O movimento não surgiu do nada: trata-se de uma resposta direta ao gesto do ex-presidente Donald Trump, que colocou em vigor, desde o começo de agosto, uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
Segundo uma fonte do Itamaraty, os Estados Unidos já serão notificados nesta sexta-feira (29). O gesto deixa claro: o Brasil não pretende assistir de braços cruzados a um tarifaço que ameaça a competitividade de seus exportadores.
O que está em jogo
A Câmara de Comércio Exterior (Camex) recebeu a missão de avaliar, em até 30 dias, se a taxação americana pode ser enquadrada como alvo da Lei da Reciprocidade Econômica. Caso a conclusão seja positiva, o Brasil terá autorização para retaliar.
Entre as medidas em estudo estão novas tarifas sobre produtos e serviços vindos dos EUA e até a suspensão de benefícios comerciais em vigor. O decreto assinado por Lula também abre espaço para retaliações provisórias, caso o governo considere urgente agir para proteger setores estratégicos da economia nacional.
Política no centro da disputa
Trump justificou a tarifa como reação a uma suposta perseguição judicial contra Jair Bolsonaro — hoje inelegível, réu em processo criminal e em prisão domiciliar. Para o Brasil, esse argumento não passa de “retaliação disfarçada”. O governo já havia classificado as acusações como improcedentes e reafirmado seu compromisso com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A mistura de economia e política intensifica ainda mais o embate. Além de gerar incertezas no comércio bilateral, a disputa pode influenciar agendas internas, tanto em Washington quanto em Brasília.
Próximos passos
Se a Camex der sinal verde, um grupo de trabalho será criado para definir a resposta brasileira. Entre as opções estão sobretaxas, suspensão de acordos e medidas específicas em áreas sensíveis como propriedade intelectual.
Os Estados Unidos terão espaço para apresentar defesa e até negociar. Nos bastidores, diplomatas avaliam que existe margem para diálogo, mas tudo dependerá da disposição de Washington em rever sua postura.
Por que isso importa
A Lei da Reciprocidade, aprovada em abril e regulamentada em julho, surgiu justamente para dar mais força ao Brasil em disputas comerciais. A decisão de Lula de acionar esse mecanismo sinaliza que o país não aceitará imposições externas sem reação.
Por outro lado, o processo também mantém aberta a porta para negociações. Se houver entendimento, as retaliações podem não sair do papel. Mas, se o impasse persistir, o comércio entre Brasil e EUA poderá viver um dos períodos mais tensos dos últimos anos.
Para produtores e exportadores brasileiros, cada decisão nesse tabuleiro terá impacto direto. E, no fim da linha, o consumidor também pode sentir os efeitos, seja no preço de produtos importados, seja na oferta de determinados itens no mercado.





