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A ideia de acabar com a obrigatoriedade das aulas em autoescolas para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) pegou muita gente de surpresa. Desde que o ministro dos Transportes, Renan Filho, levantou essa possibilidade, o setor entrou em ebulição. A proposta, que deve ser colocada em prática até outubro, reacende um debate antigo: será que dá para aprender a dirigir sem passar pelo modelo tradicional?

Hoje, quem sonha em ter a CNH precisa desembolsar entre R$ 3 mil e R$ 4 mil. O valor é pesado para a maioria dos brasileiros, e justamente por isso a mudança ganhou força. Só que, junto com a expectativa de baratear o processo, veio também a apreensão de especialistas e entidades ligadas à segurança viária.

O alerta dos especialistas

O presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária, Paulo Guimarães, não esconde sua preocupação. Para ele, dirigir não se resume a “passar na prova”. Trata-se de se preparar para situações reais, de saber reagir sob pressão e tomar decisões seguras em segundos.

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Segundo Guimarães, retirar a obrigatoriedade das aulas sem oferecer um modelo alternativo consistente pode comprometer toda a formação. Ele reconhece que o custo cairia, mas questiona a que preço: “Mais motoristas despreparados, mais acidentes e, consequentemente, um trânsito ainda mais perigoso”, disse ao G1.

O que poderia mudar no processo

Apesar das críticas, Guimarães aponta caminhos. Em vez de cortar etapas, a saída estaria em tornar as provas mais rigorosas, investir em tecnologia para monitorar o processo e manter um núcleo mínimo de aulas obrigatórias. Auditorias frequentes e examinadores bem preparados também seriam peças-chave para garantir transparência.

Oito passos para uma formação eficiente

  • Tornar o conteúdo mais prático e realista;
  • Preparar o condutor para diferentes condições de trânsito;
  • Manter um núcleo mínimo de aulas obrigatórias;
  • Atualizar métodos e conteúdos com tecnologia;
  • Rediscutir o uso de simuladores;
  • Valorizar a direção defensiva;
  • Ensinar convivência com ciclistas, pedestres e motociclistas;
  • Criar um sistema progressivo de habilitação.
  • Experiências semelhantes já deram certo em outros países, reduzindo riscos e incentivando motoristas a desenvolver percepção de perigo e responsabilidade no volante.

Como funciona tirar CNH hoje

Atualmente, o caminho até a CNH é conhecido de quem já passou pelo processo: Só de autoescola, o gasto médio gira em torno de R$ 2.500. Com taxas e exames, a conta chega a R$ 3.200. Não à toa, o governo argumenta que o valor é uma barreira para milhões de pessoas. Estimativas indicam que 40% dos motoristas de carro e 45% dos motociclistas circulam sem habilitação.

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Passo a passo da habilitação:

  • Curso teórico – São pelo menos 45 horas de aula em um Centro de Formação de Condutores, abordando leis de trânsito, direção defensiva e primeiros socorros.
  • Prova teórica – Exame escrito para testar o conhecimento sobre legislação e segurança.
  • Aulas práticas – Mínimo de 25 horas de direção, acompanhadas por um instrutor credenciado.
  • Prova prática – Exame no volante para avaliar se o candidato está apto a dirigir.

Depois da aprovação

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  • O motorista recebe a Permissão para Dirigir (PPD), válida por 1 ano.
  • Se não cometer infrações graves nesse período, pode solicitar a CNH definitiva.

O novo modelo para tirar CNH na prática

Se o projeto sair do papel, o candidato poderá escolher como se preparar. Pode estudar sozinho, contratar um instrutor autônomo credenciado ou, se preferir, continuar no modelo tradicional das autoescolas.

As aulas deixam de ser obrigatórias, mas os exames seguem valendo. Ou seja: só conquista a Permissão para Dirigir (PPD) quem for aprovado em todas as etapas — teste médico, avaliação psicológica, prova teórica e, por fim, o exame prático.

O Ministério dos Transportes calcula que o custo da CNH pode cair até 80%. Além disso, o tempo de espera também diminuiria: em vez de três meses, seria possível conseguir o documento em poucas semanas, desde que o candidato passe de primeira.

A posição dos órgãos oficiais so novo modelo de CNH

O tema chegou à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Em reunião recente, representantes da AND (Associação Nacional dos Detrans) e o secretário Adrualdo Catão discutiram os próximos passos.

Em nota, a AND afirmou que não há decisão final e que o assunto passará por consulta pública. Os Detrans, no entanto, já deixaram claro que querem esclarecimentos técnicos antes que a proposta avance. A medida, antes de tramitar oficialmente, ainda precisa do crivo da Casa Civil.

Autoescolas em xeque

E as autoescolas, como ficam nessa história? O setor teme perder relevância. Sem a obrigatoriedade, a procura pelos cursos pode despencar, colocando em risco a sobrevivência de muitos estabelecimentos, especialmente os menores.

A saída, segundo analistas, é se reinventar. As escolas poderiam apostar em serviços diferenciados, como treinamentos de direção defensiva, pacotes personalizados e aulas voltadas a situações específicas — chuva intensa, rodovias, trânsito pesado. A lógica seria transformar obrigação em oferta de valor real.

Grandes mudanças estão chegando às autoescolas
Foto: Divulgação/N1N

Um modelo de CNH inspirado em outros países

A proposta do governo não é inédita. Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Uruguai já adotam modelos mais flexíveis, nos quais a responsabilidade maior recai sobre o candidato. O segredo, nesses casos, é a combinação de liberdade com provas extremamente rigorosas.

Adrualdo Catão, da Senatran, lembra que até a Suécia, referência mundial em segurança no trânsito, não exige carga horária obrigatória. Para ele, a legislação brasileira, do jeito que está, pode até incentivar a informalidade — justamente o oposto do que se deseja.

O desafio: custo x segurança

Enquanto o governo promete baratear e agilizar o processo, críticos apontam que a redução real pode ser menor do que se imagina, já que as taxas oficiais continuam pesando no bolso. Outros alertam para o risco de colocar nas ruas motoristas mal preparados.

No fim das contas, a pergunta que fica é simples e difícil ao mesmo tempo: como equilibrar a busca por uma CNH mais acessível sem abrir mão da segurança no trânsito? É essa a equação que o governo, especialistas e o próprio setor de autoescolas terão de resolver.

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Jerffeson Leone

Jerffeson Leone possui ampla experiência na área de comunicação. Atuou na Rede Internacional de Televisão (MT) e foi diretor e redator do portal Informe Brasil. Atualmente, exerce o cargo de Diretor Executivo e Editor-Chefe do portal N1N, onde lidera a equipe editorial.