Brasília – Quem enfrenta sozinha a criação dos filhos sabe que a rotina pesa. Não é só sobre pagar contas. É o cansaço de não ter com quem dividir o choro da criança de madrugada, a correria para não perder o emprego por faltar ao trabalho quando o filho adoece, e a dificuldade de estudar, crescer profissionalmente ou, simplesmente, respirar. Diante disso, uma notícia recente trouxe alívio: a Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou uma proposta que sugere a criação de um auxílio mensal de R$ 1.200 para mães solo.
A autora da ideia, senadora Jussara Lima (PSD-PI), puxou do papel um antigo projeto ligado ao Auxílio Brasil, remodelou a proposta e direcionou o foco para quem mais precisa: mulheres que criam filhos sem qualquer rede de apoio. Em vez de insistir em uma tramitação tradicional, ela optou por apresentar a proposta como sugestão formal ao governo federal. O gesto, embora ainda sem efeito prático imediato, já movimenta o debate político.
Dura realidade
Quem já passou por isso entende: criar filhos sozinha é um trabalho que não aparece. Fica fora das estatísticas mais visíveis, não entra nas discussões centrais e, muitas vezes, sequer recebe reconhecimento. Para Jussara, ignorar essa parcela da população é fechar os olhos para uma desigualdade histórica. “Não é só uma questão de renda. É sobre dar condições reais para essas mulheres viverem com dignidade”, disse a senadora.
As dificuldades se acumulam: ausência de vagas em creches, dificuldade de acesso à saúde pública, falta de tempo e estrutura para estudar ou trabalhar. E tudo isso cai nas costas de uma só pessoa. Com frequência, sem apoio da família, sem políticas públicas adequadas e com um orçamento que mal cobre o básico.
Os números escancaram a urgência
Dados da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal revelam o tamanho do desafio: 75% das crianças de até seis anos cadastradas no CadÚnico vivem em famílias com apenas um responsável. E, em quase 74% dos casos, é a mãe quem segura tudo sozinha. Não são estatísticas frias. São rostos, histórias, mães que lutam diariamente para garantir um mínimo de estabilidade.
Esses números ajudam a entender por que a proposta repercutiu com força. Ainda que sem força de lei, ela recoloca um tema essencial na mesa: como o país trata suas mulheres mais vulneráveis?
O que a proposta pretende
Mais do que um valor fixo mensal, o plano defende a criação de uma rede de suporte. O relatório aprovado pela Comissão de Direitos Humanos inclui medidas que, se implementadas, podem transformar o dia a dia dessas mulheres:
- Acesso facilitado a creches públicas;
- Expansão de serviços de saúde para mães e filhos;
- Incentivo à formação profissional;
- Programas que incentivem a geração de renda.
Para a senadora Jussara Lima, não se trata apenas de garantir um auxílio. É preciso oferecer caminhos. “O dinheiro ajuda, claro. Mas o que essas mulheres precisam é de oportunidade para sair da margem”, reforça.
Caminho ainda incerto
Com a aprovação na comissão, o texto segue como uma recomendação ao Executivo. Não há prazos definidos para análise, nem garantia de que a proposta vire programa. Mas o movimento já é visto como um avanço. A presidente da CDH, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), também defendeu a urgência do tema e destacou que o país precisa olhar com mais atenção para quem cria filhos sozinha, muitas vezes em situação de vulnerabilidade extrema.
Se o governo decidir transformar essa sugestão em política pública, o impacto pode ser profundo. Um auxílio financeiro, aliado a políticas de suporte, pode ser o empurrão que falta para milhares de mulheres saírem da sobrevivência e retomarem o direito de planejar o futuro.





