Imagine acordar e descobrir que sua rua virou um rio. Que a padaria da esquina agora só pode ser alcançada de canoa, e o caminho até a escola exige equilíbrio sobre tábuas improvisadas. Em Anamã, no interior do Amazonas, isso não é exceção. É o calendário da vida.
Localizada no encontro dos rios Purus e Solimões, a cidade vive um ciclo curioso: seis meses em terra firme, seis meses submersa. Em 2025, cerca de 70% do município está debaixo d’água. A Defesa Civil estima que 1,7 mil famílias tenham sido afetadas, um número que, por ali, já não surpreende mais ninguém.
Quando o nível dos rios sobe, tudo se transforma. As ruas viram canais. Os mototáxis dão lugar às rabetas, pequenas embarcações com motor que passam a cortar o centro da cidade como se fosse Veneza amazônica. Escolas e hospitais se erguem sobre marombas, estruturas de madeira elevadas que garantem o funcionamento mesmo durante as cheias.

Vida entre remos e improvisos
O cenário pode até parecer pitoresco, mas viver em Anamã é lidar com desafios diários. As fossas transbordam, espalhando risco de doenças como hepatite e diarreia. A água para beber vem turva, barrenta, e mesmo nas épocas de seca continua longe do ideal. Serviços básicos – coleta de lixo, transporte escolar, assistência médica- dependem do humor do rio.
- Quando o Solimões avança, o acesso a medicamentos se torna lento.
- O lixo acumulado agrava o risco de contaminação.
- E a logística, que já é complexa, vira um jogo de paciência.
Ainda assim, ninguém desiste. A cidade se adapta, se reinventa e espera a vazante com o mesmo otimismo de sempre. Quando as águas recuam, as ruas ressurgem cheias de vida. Crianças voltam a jogar bola, o comércio reabre as portas e os moradores consertam o que restou. Tudo parece renascer, mesmo que a calmaria dure pouco.

O ciclo que insiste em recomeçar
Desde 2009, as enchentes ficaram mais intensas. Três das cinco maiores já registradas na região aconteceram depois dessa data. O Hospital Francisco Salles de Moura é um retrato dessa repetição: reconstruído ano após ano, ele sobrevive à correnteza, às perdas e ao tempo.
Houve uma tentativa de mudar o destino da cidade. Um projeto previa transferir Anamã para uma área mais alta, perto do lago de Arixi. Mas ninguém quis ir. A relação com o rio fala mais alto que qualquer promessa de segurança. É um tipo de amor que mistura identidade e resistência e que prende cada morador ao mesmo pedaço de chão, mesmo quando esse chão some sob a água.
O retrato de um futuro incerto
As mudanças climáticas intensificam o que já era extremo. O aquecimento do Atlântico e os efeitos de El Niño e La Niña bagunçam o ciclo natural das águas. O resultado é uma rotina cada vez mais imprevisível, com impacto direto na economia, na saúde e na segurança alimentar das comunidades ribeirinhas.
Anamã, porém, continua firme. Suas casas em palafitas, suas pontes improvisadas e a teimosia de quem se recusa a partir mostram que tecnologia, ali, se traduz em sabedoria popular. Entre o subir e o descer das águas, a cidade aprendeu a remar junto, a criar soluções com o que tem e a resistir com um tipo de fé que não seca nunca.
Pensar em cidades inteligentes é pensar em adaptação. E nesse quesito, Anamã é uma professora silenciosa: ensina que sobreviver ao futuro começa com entender o presente, mesmo quando ele vem flutuando.





