Uma proposta em debate no governo federal pode abrir espaço para uma transformação inédita no mercado brasileiro. A medida promete mexer com quem sonha em tirar a CNH, aliviar o bolso dos candidatos e, de quebra, desafiar o modelo engessado das autoescolas. E, no embalo dessas mudanças, surge até a possibilidade de uma nova função profissional que pouca gente imaginava ver ganhar forma no país.
Impacto no bolso: CNH mais barata?
A principal mudança está na flexibilização de uma das regras mais tradicionais do processo de habilitação: a obrigação de passar por uma autoescola. O projeto será submetido a consulta pública nos próximos dias e, depois, levado ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran).
Hoje, conquistar a CNH de carro e moto custa, em média, de R$ 3 mil a R$ 4 mil. Com a nova proposta, a expectativa é que os gastos despenquem para algo entre R$ 750 e R$ 1 mil. O motivo? Não haverá mais um número mínimo de aulas obrigatórias. Além disso, a concorrência entre instrutores independentes e autoescolas deve forçar os preços a caírem.
O governo argumenta que o custo alto decorre de um monopólio criado por lei. Quando o aluno puder negociar direto com o instrutor, pagará apenas pelas aulas que realmente precisar.

A nova profissão
É nesse cenário que pode nascer uma profissão inédita no Brasil: o “personal instrutor” de trânsito. O conceito é inspirado no personal trainer das academias. A diferença é que, em vez de musculação, o foco aqui será a direção.
Na prática, esses profissionais poderão oferecer aulas de forma autônoma, sem vínculo com autoescolas. Segundo o secretário nacional de trânsito, Adrualdo Catão, a ideia é garantir liberdade de escolha, reduzir custos e acabar com a reserva de mercado.
O que é o personal instrutor de CNH?
Hoje, a legislação obriga que todo instrutor esteja vinculado a uma autoescola. Com a mudança, o profissional poderá atuar por conta própria. Caberá ao candidato decidir: seguir no modelo tradicional ou contratar um instrutor independente, escolhendo quantas aulas considerar necessárias.
Como se qualificar?
Para exercer a função, será preciso concluir curso reconhecido pela Senatran, obter credenciamento junto ao Detran e contar com veículo próprio identificado para aprendizagem. Um ponto ainda em debate é a obrigatoriedade do carro ter duplo comando, tema que deve ser detalhado na consulta pública.
Consulta pública e próximos passos
O texto ficará aberto por 30 dias para contribuições da sociedade antes de ser votado pelo Contran. A proposta, na prática, inverte a lógica atual: em vez de pagar por um pacote mínimo de aulas, o candidato será avaliado diretamente na prova prática, que passa a ter peso central.
Mesmo que a mudança possa ser implementada por via administrativa, o embate promete ser intenso. Autoescolas já articulam pressão em Brasília para levar o tema ao Congresso e abrir audiências públicas. Afinal, a disputa envolve bilhões de reais e pode impactar diretamente a segurança viária.
Entre economia e segurança
De um lado, o governo aposta na economia para o cidadão e na possibilidade de reduzir o número de 20 milhões de motoristas que hoje dirigem sem habilitação. De outro, as autoescolas defendem a importância de manter um padrão mínimo de formação, sob pena de aumentar o risco no trânsito.
O impasse, portanto, vai muito além da questão financeira. Caberá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidir se o personal instrutor de trânsito se tornará, de fato, a nova profissão que pode mudar a forma como o Brasil forma seus motoristas.





